Poucos capítulos da história do futebol são tão marcantes — e tão negligenciados — quanto a trajetória do futebol feminino no Brasil. Durante décadas, mulheres foram proibidas por lei de praticar o esporte. Hoje, o país forma campeãs olímpicas e mundiais, e conta com a maior artilheira da história das Copas do Mundo em atividade: Marta Vieira da Silva.
A evolução não aconteceu de forma fácil. Ela é resultado de décadas de luta de atletas, dirigentes e torcedores que enxergaram no futebol um espaço para todas as pessoas. Entender esse percurso ajuda a valorizar ainda mais o que as jogadoras brasileiras conquistaram — e o quanto ainda pode ser conquistado.
A Proibição Legal e as Pioneiras do Futebol Feminino
Por mais surpreendente que pareça, jogar futebol era proibido para mulheres no Brasil entre 1941 e 1979. O Decreto-Lei nº 3.199, de 1941, determinava que às mulheres não era permitido praticar esportes considerados "incompatíveis com as condições de sua natureza". O futebol estava na lista.
Mesmo assim, houve resistência. Em algumas cidades do interior, mulheres jogavam na clandestinidade, desafiando as autoridades e os preconceitos da época. No Rio de Janeiro e em São Paulo, times femininos chegaram a se formar nos anos 1950 e 1960, mas sempre sob pressão e sem qualquer reconhecimento oficial.
A revogação da proibição, em 1979, abriu as portas para o surgimento de competições organizadas. Em 1983, foi disputado o primeiro Campeonato Brasileiro Feminino, e em 1988, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) reconheceu oficialmente o futebol feminino como modalidade sob sua gestão.
A Seleção Brasileira nas Copas do Mundo
A participação brasileira na Copa do Mundo Feminina de Futebol começou na edição de 1991, na China. Naquele torneio, a equipe caiu nas quartas de final, mas já demonstrava potencial. Nos anos seguintes, a Seleção foi crescendo e se tornando uma das forças do futebol feminino mundial.
Os grandes resultados vieram:
- 1999 (EUA): terceiro lugar, melhor resultado até então
- 2004 (Atenas) e 2008 (Pequim): medalhas de prata olímpica, em duas finais consecutivas
- 2007 (China): vice-campeã do mundo, eliminada pela Alemanha na final
- 2024 (Paris): medalha de bronze olímpica com a nova geração
A final da Copa do Mundo de 2007 representa o ponto mais alto da Seleção em Mundiais. A derrota por 2 a 0 para a Alemanha esconde o que foi uma campanha extraordinária: Marta marcou 7 gols no torneio e levou o prêmio de melhor jogadora do mundo pelo quinto ano consecutivo.
Marta: A Rainha do Futebol Feminino
Marta Vieira da Silva, natural de Dois Riachos (AL), é considerada a melhor jogadora da história do futebol feminino. Seus números são simplesmente imbatíveis:
- 17 gols em Copas do Mundo — recorde histórico (feminino e masculino)
- 6 vezes eleita melhor jogadora do mundo pela FIFA (2006–2010, 2018)
- Títulos em Brasil, Suécia, Estados Unidos
Marta se tornou um símbolo muito além do esporte. Seu famoso discurso após a eliminação na Copa de 2019 — pedindo às meninas que "chorem agora" mas que usem as lágrimas como combustível — emocionou o Brasil e reverberou pelo mundo inteiro.
Além dela, outros nomes marcaram a história da Seleção: Formiga (que jogou Copas do Mundo dos 19 aos 41 anos), Cristiane, Pretinha e, mais recentemente, Bia Zaneratto, Kerolin e Gabi Portilho.
O Futebol Feminino nos Clubes Brasileiros
Os times de futebol feminino nos grandes clubes brasileiros só começaram a ganhar estrutura e investimento de forma mais consistente nos anos 2010. Antes disso, a maioria das atletas brasileiras precisava emigrar para a Europa ou os Estados Unidos para ter condições mínimas de treinar e competir profissionalmente.
O Campeonato Brasileiro Feminino — chamado de Brasileirão Feminino A1 — é hoje a principal competição do país. Os clubes de maior tradição incluem:
- Corinthians: dominante na última década, com estrutura profissional robusta
- Palmeiras e São Paulo: investiram fortemente na modalidade
- Internacional e Grêmio: clubes do Sul com histórias vitoriosas
- Santos FC: clube formador de Marta em seus primeiros passos
A Libertadores Feminina, organizada pela CONMEBOL, também cresce em prestígio, com times brasileiros sendo frequentemente finalistas.
Desafios Atuais e o Futuro da Modalidade
Apesar do crescimento, o futebol feminino ainda enfrenta desafios estruturais no Brasil:
Salários desiguais: A diferença de remuneração entre jogadoras e jogadores profissionais ainda é enorme. Uma jogadora de time grande pode receber entre R$ 3.000 e R$ 15.000 por mês, enquanto atletas masculinos de nível similar recebem dez vezes mais.
Visibilidade midiática: Transmissões ao vivo de jogos femininos ainda são menos frequentes do que no masculino, embora plataformas de streaming estejam mudando esse cenário.
Infraestrutura: Nem todos os clubes oferecem estrutura adequada (academia, fisioterapia, nutrição) para as equipes femininas.
Por outro lado, os sinais de avanço são claros: aumento de patrocinadores exclusivos para o futebol feminino, campanhas de marketing focadas nas atletas e crescimento do interesse da torcida jovem mostram que a modalidade ganha espaço a cada temporada.
Se você quer entender melhor como o futebol pode ser aprimorado, independente do nível, confira nossas dicas sobre como melhorar o chute no futebol — porque as técnicas valem para todos.
Conclusão
A história do futebol feminino brasileiro é uma história de superação. Das jogadoras que enfrentaram a ilegalidade nos anos 1950 às campeãs olímpicas de hoje, o caminho percorrido é inspirador. O Brasil tem talento de sobra — Marta provou isso ao mundo. Agora, o desafio é garantir que a próxima geração tenha a estrutura que as pioneiras nunca tiveram.
Acompanhar, torcer e valorizar o futebol feminino é uma forma concreta de fazer esse esporte crescer ainda mais.
Perguntas Frequentes
Quando o futebol feminino foi liberado no Brasil?
A proibição legal que impedia mulheres de jogar futebol vigorou de 1941 a 1979. O Decreto-Lei nº 3.199/1941 listava o futebol entre os esportes "incompatíveis" com as mulheres. A revogação veio com a Deliberação nº 01/79 do Conselho Nacional de Desportos.
Quantos gols Marta marcou em Copas do Mundo?
Marta é a maior artilheira da história das Copas do Mundo, com 17 gols marcados em seis edições do torneio (2003, 2007, 2011, 2015, 2019 e 2023). Esse recorde supera inclusive qualquer jogador masculino da história.
Qual é o maior título do futebol feminino brasileiro?
Em Copas do Mundo, o maior resultado foi o vice-campeonato em 2007, quando a Seleção perdeu a final para a Alemanha. Nas Olimpíadas, o Brasil conquistou duas pratas (2004 e 2008) e um bronze (2024).
Onde posso assistir jogos do Campeonato Brasileiro Feminino?
O Brasileirão Feminino A1 tem transmissões no Canal GOAT (YouTube), SporTV e Globo. Algumas rodadas também aparecem nos canais oficiais dos clubes nas redes sociais, especialmente em plataformas de streaming.
Quais jogadoras brasileiras atuam no exterior atualmente?
Várias jogadoras brasileiras atuam em ligas europeias e americanas de alto nível. O futebol feminino nos EUA (NWSL) e na Europa (especialmente Espanha, Inglaterra e Suécia) continua atraindo talento brasileiro pelo nível técnico e financeiro das competições.

